Perfil – Renata Nina

22/09/2008

Hoje, excepcionalmente, o Ewaldos Filhos traz um post teatral. Ao fazer o perfil de Renata Nina, produzimos dois pequenos videos que mostram o trabalho e a personalidade da atriz paulistana.

A primeira idéia foi mostrar um pouco do trabalho dela, apresentando parte de uma passagem informal de texto, um ensaio dela com ela mesma. A proposta da atriz foi fazer uma brincadeira metalinguística, na qual ela deixa claro que está atuando para a nossa câmera, ao mesmo tempo em que está ensaiando uma peça real.

Em determinado ponto da entrevista, uma proposta feita a ela foi filmar um fluxo de pensamento contínuo. A idéia: falar para a câmera tudo o que viesse à cabeça, em sequência, tentando ligar um assunto a outro. O resultado foi esse:

*estes posts especiais, que fogem da editoria condutora de Ewaldos Filhos – o cinema, podem se repetir eventualmente.

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O herói real

30/07/2008

POR HENRIQUE GUIDI

Dando uma passada aqui por Ewaldos Filhos vi que cometemos um grande pecado cinéfilo: é inadmissível que um blog que se diz de cinema ainda não tenha falado do grande filme que toma conta das salas de projeção brasileiras: Batman – O Cavaleiro das Trevas (Christopher Nolan, 140 minutos).

Quem perdeu tempo para assistir Batman Begins pode até ter ficado receoso para acompanhar a nova aventura do Homem-Morcego. Um filme comum, sonolento e muito abaixo das histórias do cavaleiro das trevas poderia ter feito “micar” a mais nova estréia do rival do Coringa. No entanto, isso não aconteceu.

Para quem foi ao cinema e assistiu a “Cavaleiro das Trevas” ficou a sensação da reparação de um erro, o erro de ter sido rodado o “Begins”. Com o mais novo lançamento, Batman assume um papel de herói realista, sofrendo alguns baques durante a história e até mesmo mordidas de cachorros em suas batalhas contra os mafiosos de Gotham City.

O Batman em si parece ser meio comum. Christian Bale, o intérprete, ficou mais notório por ter batido na mãe e na irmã em Paris do que por sua atuação por trás da máscara negra. No entanto, o destaque fica por conta dos coadjuvantes – ou seriam eles os principais?

Heath Ledger deixará saudade. O ator que morreu no começo do ano após ingerir remédios demais encerrou sua vida artística com chave de ouro na interpretação do vilão Coringa , o ponto alto do filme. Ledger teria ficado um mês trancafiado em um quarto de hotel apenas estudando o personagem dos quadrinhos originais, para poder interpretar o antagonista o mais próximo possível de sua concepção. Não decepcionou. A língua e os risos maquiavélicos o fizeram substituir mais do que à altura a Jack Nicholson, o mais famoso ator que deu vida ao “Joker”.

Um outro personagem que sempre foi meio esquecido nas películas de Batman é o Comissário Gordon. O comandante do policiamento de Gotham City sempre foi um grande parceiro do Homem-Morcego nos quadrinhos e nos seriados, mas nunca no cinema. Para fazer Gordon brilhar, ninguém menos que o inglês Gary Oldman foi chamado, um consagrado ator que mostrou a que veio no filme.

Com tantos bons ingredientes – e um promotor que por vezes transforma-se no herói da cidade de Gotham – é recomendável gastar um pouco para comparecer a qualquer Cinemark ou outras salas comerciais de cinema. Ainda que os preços não nos façam querer deixar de comprar aquela famosa cópia “3 por 10” nas ruas.

Para quem já viu e gostou, uma boa notícia: vem aí o terceiro da última trilogia “batmanesca”. Se Begins foi ruim e Cavaleiro das Trevas foi excepcional, esperemos que o derradeiro episódio siga a linha do segundo e delicie cada vez mais os fãs de um dos únicos heróis humanos existentes na face da Terra – para mim, insuperável.


As tristezas do cinema francês

24/06/2008

Por Tainá Tonolli

Já foi comentado aqui a programação do Panorama do Cinema Francês que acontece até dia aqui na Reserva Cultural. O evento é um verdadeiro sucesso – os ingressos estão esgotados há alguns dias para todas as sessões.

Para quem se programou com antecedência, foi possível comprar o pacote com os oito filmes. Já vi cinco deles, e apesar das piadas, nenhum tem uma temática alegre.

Lady Jane: Muriel tem seu filho sequestrado e se encontra com antigos compnheiros de crime para tentar resolver o caso ou pagar a fiança. Vingança é o que motiva o grupo. Um bom filme, mas poderia ter umas cenas a menos. Além disso, a certa altura, um dos amigos de Muriel lembra que era apaixonado por ela e volta afazer cobranças sobre o passado. Engraçado como ninguém consegue pensar numa amizade sincera entre homens e mulheres, sem envolver amor/sexo.

A Última Amante: Ryno esta prestes a se casar. Ama sua noiva, mas não consegue se livrar da amante espanhola Vellini (claro, as espanholas são a encarnação do demônio, fazem a cabeças do homens e são insaciáveis). O melhor do filme é a avó da noiva, que tudo aceita e tudo entende. Mais moderna que os mais jovens. Em segundo lugar, ficam as cenas do começo da relação de Ryno e Vellini. O ator Fu’ad Aït Aatou é bom, mas perde para Luis Garrel (protagonista de Canções de Amor, que vi no mesmo dia).

Canções de Amor: Ah, Garrel… Do mesmo diretor de “Em Paris”, Christophe Honoré, o musical se passa em Paris, e como a cidade é linda, a fotografia aproveitou. Se você viu “Em Paris” e gostou, vai amar este também. Garrel é casado (mora com a namorada), mas uma terceira mulher (Alice) acaba se envolvendo na relação. A namorada morre e ele tenta se recompor da perda. Acaba conhecendo o cunhado de Alice que se apaixona por ele.  Lindo, lindo, lindo…

A Advogado do Terror: Documentário sobre um cara que defende terrorístas, criminosos e sumiu por uns 8 anos. 135 minutos que passam sem perceber. Os depoimentos dele são os melhores.

O Escafandro e a Borboleta:  Um ator que não faz nada e dá um show. Sensível, maravilhoso. O primeiro com ingressos esgotados com vários prêmios. Bauby, editor da Elle, tem um AVC (derrame cerebral) e fica completamente imoblizado. E escreve um livro, com a ajuda de uma ortofonista que desenvolve um método para que ele se comunique com o olho esquerdo, única coisa em seu corpo que se mexe. Podia ser desesperador, piegas, mas não. Com pensamentos bem humorados, o filme é mais leve do que parece.

Como eu disse, só umas histórias tristes. Mas vale a pena ver todos. Entre bons e muito bons, cada ingresso vale a pena.

Canções de amor


Crítica – Amores Brutos 

23/06/2008

Trilogia da Perda
Amores Brutos inicia uma trilogia de brilho e confirma a hipótese de que raros são os mestres que conseguem repetir a grandiosidade da obra-prima.

 Alejandro Gonzáles Iñárritu é um cineasta mexicano de 45 anos. Foi descoberto em 2000, com a produção de Amores Brutos (Amores Perros), um filme – com o perdão da simplificação – sobre a perda, os amores, a esperança e os problemas nos relacionamentos. O sucesso surpreendeu: era uma produção latina, com atores latinos e recursos latinos e, ainda assim, ganhou a crítica e o público internacional. A partir daí, Iñárritu virou destaque dos grandes jornais e das semanais norte-americanas e conquistou o bilhete de entrada para Hollywood.

No ano seguinte, o diretor fez 21 Gramas, filme que se passa nos Estados Unidos e segue o mesmo padrão do primeiro: três histórias, que se encontram em determinado momento, e provocam reflexões sobre a perda e sobre os relacionamentos. Desta vez, os atores são todos americanos, incluindo grandes nomes como Sean Penn, Benicio Del Toro e Naomi Watts. A semelhança com o primeiro filme levou Iñárritu a pensar em uma trilogia.

O terceiro e último filme, então, veio em 2006, Babel. Nele, o diretor vai do México para o mundo. As várias histórias se passam nos Estados Unidos, Marrocos, Japão e México. A produção também foi grandiosa, com um orçamento de 25 milhões de dólares, e atores como Brad Pitt e Cate Blanchett, além da volta de Gael García Bernal, que atuou em Amores Brutos.

Os três filmes têm muito em comum: a fórmula da narrativa com cronologia não-linear para mostrar o mesmo acontecimento repetidas vezes, sob o ângulo de cada personagem – os flashs vão e vêm na tentativa de explicar a história de cada um; os três são montagens tensas e dinâmicas, que deixam o espectador apreensivo; e os três são filmes emocionais, com a intenção de comover e paralisar, longe de qualquer pretensão intelectual.

Amores Brutos ficou de lado depois que a trilogia se completou. Recentemente, com a explosão de filmes que têm Gael García Bernal no elenco, o filme foi relembrado e voltou às prateleiras de indicações. Mas o mérito ficou com o filme todo, e não só com Gael: Amores Brutos se manteve na sessão de favoritos por ser o melhor filme da trilogia. Os dois milhões de dólares usados para produzi-lo foram suficientes para superar os outros dois, mesmo com um orçamento mais de dez vezes menor.

Nele, Iñárritu explora três histórias relacionadas com cachorros – daí o nome original, Amores Perros – que se cruzam em uma batida de carro. O cunhado que gosta da cunhada, um casal de amantes e um quase morador de rua que sofre a perda da família que abandonou têm a vida mudada a partir do acidente.

As histórias são bem costuradas. O diretor deu conta das informações essenciais para que cada personagem seja conhecido a fundo e ele não se perdeu na vida de cada um. Nos cortes, nos closes e nos ângulos de filmagem, entramos na história para participar da vida daquelas pessoas. Os takes são de tal forma significativos que não são necessárias mais de duas cenas de cada personagem para termos a sensação de que somos íntimos dele. E o fato de a câmera acompanhar os movimentos físicos dos personagens aumenta a impressão de que estamos próximos. A filmagem parece ter sido feita com uma câmera de mão, para que nós possamos acompanhar os passos, a corrida e os choques de cada um da história.

No entroncamento das vidas dos personagens, fica evidente a relação entre pessoas de realidades sociais, culturais e econômicas muito diferentes. Além disso, Iñárritu faz com que as pessoas dependam uma da outra na narrativa. Nesse momento, o diretor consegue fazer com que nos sintamos angustiados assistindo o filme, refletindo sobre quando precisaremos de alguém que não conhecemos.

Gael Garc�a Bernal se consagrou internacionalmente em Amores Brutos

Iñárritu conta a vida das pessoas prestando atenção em todas outras as pessoas que cruzam o caminho dela. Ele deixa no ar a questão do destino, de quantas vezes cruzamos com pessoas nas ruas sem perceber e quantas vezes conhecemos alguém achando que nunca o vimos antes, apesar de ter passado tantas vezes no nosso caminho.

O drama que Iñárritu propõe é contundente, com imagens que grudam na mente. Amores Brutos consegue ser um filme violento sem sangue e armas. As atuações são impecáveis e ajudam a dar consistência para a narrativa, além de afastar o risco de as histórias cheias de sofrimento se tornarem melodramas de novela.

O elenco principal é, sem dúvida, uma atração imperdível do filme. Com destaque para Emilio Echevarria, que faz o papel de Chivo, o morador de rua. Os atores que compõem a ficha técnica da produção competem de igual para igual com os nomes do topo da lista de Hollywood que atuam nos outros dois filmes da trilogia de Iñárritu.

Os quatro prêmios de cinema que recebeu e a indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro comprovaram a grandeza de Amores Brutos e mostraram que as dificuldades do cinema latino-americana só engrandecem os bons filmes produzidos nessa região do mapa.

O efeito que Iñárritu consegue em Amores Brutos poucos filmes hollywoodianos alcançam. O diretor comove o espectador ao mesmo tempo em que o deixa na posição de frieza e indiferença à condição humana. A comoção vem pela perplexidade: o filme termina e o espectador está congelado na frente da tela, impressionado com a quantidade de finais infelizes; a frieza vem pelo motivo da comoção: a tragédia com os cães, a morte, o sofrimento e a dor desses animais espalha a compaixão e a revolta com o fim deles; a culpa vem logo em seguida: não entendemos por que a emoção aflorada veio pelos cachorros e não por algum personagem do filme, já que todos, sem exceção alguma, têm um final infeliz, com perda e sofrimento.

As duas horas e meia de filme poderiam ser editadas sem prejudicar a narrativa. Mas os pequenos buracos na história parecem propositais: são o momento de um silêncio angustiante, em que vivemos a dor do personagem como se fosse nossa. Se a trilogia de Iñárritu é sobre a perda, é Amores Brutos que consegue passar a mensagem. Nenhum dos dois outros da trilogia transmitem em tamanha proporção o recado de que todos somos também aquilo que perdemos.

Por Gabriela Mayer


Expoente latino

23/06/2008

Com a carreira iniciada aos quase 30 anos de idade, Ricardo Darín é hoje um dos maiores atores da América Latina e um dos mais importantes expoentes da cultura latino-americana

 

Por Maira Giosa

 

A partir da década de 90, a América Latina iniciou uma fase de expansão cultural que vem crescendo a cada ano.  A produção das artes vêm, também, ganhando espaço na mídia e projeção no cenário internacional. É neste contexto de abertura do cinema, teatro e música latino-americanos que se insere um dos maiores artistas do período.

 

O argentino Ricardo Darín foi um dos expoentes mais significantes para a consagração do cinema da América Latina mundo afora. A carreira, inciada em 1979 na televisão, foi alavancada pela qualidade dos filmes dos quais já participou. Darín foi o personagem central de alguns dos mais importantes filmes da Argentina dos últimos tempos.

 

A carreira de Darín se mostrou promissora quando ele gravou, aos 29 anos, El mismo amor, la misma lluvia (“O mesmo amor, a mesma chuva”). Dirigido por Juan José Campanella em 1999, este foi o motor para a projeção de seu trabalho e reconhecimento mundial. Foi o primeiro trabalho com o também ator Eduardo Blanco, que teria muita participação e influência na carreira de Darín. A partir de então, uma parceria entre ator(es) e diretor se estabeleceu, aclamando o talento de todos.

 

É por isso que o filme seguinte do trio, El híjo de la novia (“O filho da noiva”), de 2001, foi um dos mais aclamados da época. Trata-se de uma comovente história sobre fatos tão cotidianos e reais, que a identificação com personagem principal, Rafael, é praticamente impossível. Sensível sem ser piegas, o filme retrata com maestria os temas comuns da vida, e a beleza do reencontro. “O filho da noiva” ganhou o Grande Prêmio do Júri e o de Melhor Filme Latino-Americano, no Festival de Montreal.

 

Para completar uma possível trilogia, é necessário incluir Luna de Avellaneda (“Clube da Lua”), de 2004, entre alguns dos mais importantes na carreira do artista. Repetindo o sucesso do trio Darín/Blanco/Campanella, o filme conta uma história simples – mas não simplória – de pessoas comuns, com dramas e traumas próximos, que cometem erros constantemente. E exatamente por isso, são falhos como nós. Apesar de poder não aprovar as mudanças de caráter tão drásticas – em um momento os atos são nobres, para logo em seguida serem mesquinhos – o espectador compreende perfeitamente a inteção das ações e as motivações que levaram os personagens a agirem de determinada maneira. Tido como um dos melhores filmes do ano, Darín foi premiado como o melhor ator no Festival de Valladolid.

 

Estas três obras-primas ainda se somam aos filmes Kamchatka de 2002 (que baseou o brasileiro “O ano em que meus pais saíram de férias”), La educación de las hadas (“A educação das fadas”), de 2006, o polêmico XXY, e El Señal (“O Sinal”), ambos de 2007. Atualmente, Darín é tido como um dos representantes mais significativos da cultura latino-americana, e seus filmes são sucesso de crítica e público.

 

O filho da noiva:

http://br.youtube.com/watch?v=i6BBNSzwZns

 

Clube da lua:

http://br.youtube.com/watch?v=B2ZnKwQA33U

 

 O mesmo amor, a mesma chuva:
http://br.youtube.com/watch?v=E5w0gqYT_Ng


Cinema com assinatura

23/06/2008

Com a visibilidade internacional nos últimos anos, cinema latino-americano abre espaço para filmes autorais. Exemplo disso, os argentinos Lucrecia Martel e Pablo Trapero ganham respeito e chegam a Cannes.

por Eduardo Duarte Zanelato

“E sua mãe também”, “Central do Brasil”, “Cidade de Deus” e “O Pântano” são nomes que, nos últimos anos, fizeram cinéfilos, críticos e formadores de opinião europeus e americanos olharem com mais atenção à produção cinematográfica latino-americana, que desde Glauber Rocha é vista com outros olhos por esses mercados.

Com o tempo, Palmas de Ouro foram conquistadas em Cannes, Berlim rendeu uma porção de ursos e alguns chegaram ao Oscar, mesmo que sem levar prêmios. Com isso, a América Latina ganhou maior destaque mundial – leia-se aqui maior viabilidade comercial de suas produções, ainda que em circuitos alternativos –, o número de roteiros filmados têm aumentado, mesmo que devagar, e o cinema autoral ganhou um fôlego extra.

Se Fernando Meirelles e Alejandro González Iñarritú seguiram carreiras quase hollywoodianas com produções recheadas de astros internacionais, alguns diretores, quer por falta de oportunidade ou interesse, optaram por permanecer em seus países, com orçamentos mais modestos e reféns apenas de seu processo criativo. Exemplo disso, os argentinos Lucrecia Martel e Pablo Trapero seguem com filmes autorais – e retóricas completamente distintas. Conheça a seguir um pouco da trajetória desses dois diretores.

Diva portenha

Hoje, Lucrecia Martel acumula a direção de sete filmes, todos com uma estética parecida. A decadência da classe média argentina, casos de alcoolismo, lesbianismo e outras crises mais ou menos sérias são discutidas em suas produções.

De sua produção recente, pode-se destacar “O Pântano”, de 2001, e “A Menina Santa”, de 2004. O primeiro retrata uma família da elite decadente em sua casa de campo; com fotografia escura, cenas longas e uma melancolia reinante, situações vão se passando em meio a adultos bêbados e um ambiente pesado. O título representa um pântano social e psicológico, que prende e afunda essa classe que, sem forças, torna mais complexas as relações entre si e sua derrocada financeira.

“A Menina Santa” é o retrato, também por meio dessa estética melancólica e arrastada, da descoberta sexual de uma jovem em meio a seus estudos de catecismo e as intrincadas relações dos funcionários do hotel que lhe serve de casa e de trabalho para sua mãe. A história é transformada em um jogo de esconde-esconde perverso entre um médico e a jovem Amalia, no que se assemelharia a uma recriação muito particular e original do livro Lolita, de Vladimir Nabokov.

O Padilha argentino

Enquanto Lucrecia promove uma reflexão da classe média argentina e de suas intrincadas relações, culpas e manias, uma outra vertente é proposta pelo talentoso Pablo Trapero, diretor de filmes como “Mundo Grúa”, de 1999, e “Do outro lado da lei”, de 2001. Adotando a temática das diferenças e tensões sociais do ponto de vista dos ‘oprimidos’, Trapero aborda os temas que giram em torno disso com mais virulência que Lucrecia.

Em “Mundo Grúa”, filme que lhe rendeu elogios e projeção internacionais, o diretor aborda as frustrações dos sonhos de infância de um argentino que se vê obrigado a sair do país em busca de oportunidades, dada a crise pela qual passa o país. Já “Do outro lado da lei” é ainda mais contundente. Numa espécie de antecipação ‘light’ de “Tropa de Elite”, o filme discorre sobre a corrupção da polícia de Mataderos, distrito da Grande Buenos Aires – uma espécie de Diadema portenha.

A partir desse contexto de corrupção, um ingênuo jovem do interior é catapultado à colheita de propinas, ao subjugo dos menos favorecidos e a uma conturbada relação amorosa com uma policial. O saldo é um convite à analise de como a anomia à qual o subdesenvolvimento relega sua população se choca com os poderes insitucionalizados.

Outras obras de Trapero, mais antigas, seguem essa proposta de discussões mais profundas e chocantes, como “Família Rodante” e “Nascido e Criado”, de 2004 e 2006, respectivamente.

O peso do nome

As duas linhas propostas por Trapero e Lucrecia ganharam força e projeção no último Festival de Cannes, em maio deste ano. Ao lado de “Linha de Passe”, de Walter Salles, “Leonera”, de Trapero, e “La Mujer Sin Cabeza”, de Lucrecia, concorreram na mostra competitiva.

“Leonera” é a história de uma mulher que, grávida, tem de cumprir pena de prisão; por lá, ela tem seu filho, que permanece preso também. “Foi algo que me suscitou sentimentos contraditórios, porque discutem-se dois direitos questionáveis: o de uma mãe de estar com seu filho e o de uma criança de viver em liberdade”, afirmou Trapero, em entrevista à agência Reuters, quando do lançamento do filme em Cannes. À época, Carlos Merten, repórter d’O Estado de São Paulo, definiu o filme relacionando-o à “Família Rodante”. “Pablo Trapero volta a falar de família como inferno e paraíso, como em ‘Família Rodante’, mas desta vez ele fez o contrário de um road movie. A personagem fica presa na cadeia para fazer a viagem transfrormadora”, escreveu.

Já “La Mujer Sin Cabeza”, pode ser descrito, a partir do que se escreveu sobre seu lançamento em Cannes – o filme, assim como “Leonera”, ainda não estreiou por aqui –, como um thriller que se desenrola a partir de um acidente rodoviário que muda a vida de uma mulher.

O destaque e a repercussão dos filmes sinalizam que, possivelmente, os diretores ganhem ainda mais foça e projeção fora de seu país. Os dois filmes foram citados pela revista americana Variety, e “La Mujer…” conta com distribuição da gigante americana Focus Features; “Leonera”, por sua vez, é distribuido pela também gigante norte-americana Buena Vista International. Abaixo, você confere os trailers dos dois filmes, ainda sem lançamento previsto no país.

Trailer: “La Mujer Sin Cabeza”

Trailer: “Leonera”



Scarlet Johansson, Penélope Cruz e Javier Bardem?

22/06/2008

Por Stefanie Gaspar

Impossível resistir ao fascínio do último filme de Woody Allen, Vicky Christina Barcelona. Curiosamente, não pelo talento indiscútivel do diretor, pelo talento do elenco ou por qualquer outra razão – a verdade é que Scarlet Johansson, Penélope Cruz e Javier Bardem em um triângulo amoroso já explícito nos trailers do filme é o suficiente para virar a cabeça do espectador mais cético.

É cedo para especular se o filme de Woody Allen será tão bom quanto Match Point ou apenas uma decepção. Entretanto, vale a pena ver o trailer e tentar imaginar qual a história do filme – porque, propositalmente ou não, a única coisa que é possível perceber é a beleza estonteante do elenco.