Com recriação de 1968, Bertolucci escancara as caretices pós-modernas

22/04/2008

“Havia algo mágico nos anos 60. Havia união, coisa que não existe mais. O fato de estarmos sonhando juntos, cinema, política, música, jazz, rocnk’n’roll, sexo, filosofia; eram as coisas mais importantes para mim”. Essa é a sentença de Bernardo Bertolucci no vídeo de 52 minutos do making off de “Os Sonhadores”, de 2003.

Bertolucci recriou com delay de 35 anos o ambiente agitado da Paris de 1968, como pano de seu filme, que retrata a relação de descobertas de três jovens, dois irmãos gêmeos franceses e um estudante americano da mesma idade. A dúvida que permanece, entretanto, é porque a retomada do mítico período em 2003.

No filme, a demissão arbitrária do diretor da Cinèmathéque Française, em fevereiro de 1968, leva os três jovens a passarem mais tempo juntos em casa, num período de intensas descobertas sexuais e afetivas tão conturbadas quanto os acontecimentos políticos que se passavam paralelamente. É assim que se desenrola a história dos irmãos gêmeos Theo (Louis Garrel) e Isabelle (Eva Green) com o estudante americano Matthew (Michael Pitt).

A eclosão das manifestações de maio de 1968, que paralisaram a França quase que por completo, aparece apenas nas últimas cenas do filme e, numa união perversa de objetivos, representa também o ápice da crise anunciada que se espera acontecer entre os jovens durante todo o filme. Ali, há a ruptura definitiva entre revolucionários e governo, entre os gêmeos e o intruso americano.

Em 2003 seria difícil recriar a situação. Afinal, 35 anos depois estávamos – e, agora, 40 anos depois, ainda permanecemos – diante de uma sociedade fragmentada, caótica, multidirecionada. A quantidade se sobrepôs à qualidade, e isso se refletiu diretamente nos relacionamentos. Os casamentos se diluem, outros se formam rapidamente. O barato é se relacionar com uma, duas, três, quatro ou quantas mais pessoas forem necessárias para que se satisfaça algo que soa insaciável. Tudo isso dentro dos limites do ‘politicamente correto’ e ‘socialmente aceitável’. Segundo pregam os herdeiros de Plinio Corrêa de Oliveira (TFP), nada de transgredir. Isso é para os imorais.

A atmosfera libidinosa regada a vinho de “Os Sonhadores” não mais seria possível na sociedade politicamente correta de hoje. Mal podem os pobres serem chamados dessa maneira – cuidado! chamem-os ‘menos favorecidos’ – que dirá os jovens descobrirem-se da forma como propõe Bertolucci. Institucionalizou-se, depois de 1968, conceitos contestados à época, como a censura, a hipocrisia e a falta de massa crítica.

Talvez esteja aí a resposta da pergunta feita há pouco. Se para o diretor, como ele afirma no making of, ‘filmar o passado é filmar o presente’, Bertolucci nos propõe uma retomada do aventureirismo saudável de 1968, a incoseqüência inocente e os valores coerentes da época. A proposta, se tomada mais à diante, é um protesto.

Um protesto contra o cinema blockbuster que obedece às metas da indústria cultural, ou contra a política externa estúpida dos players da política internacional. Um protesto, enfim, contra essa caretice embrutecedora e rasa dos – muitos – jovens de hoje. Quem sabe, assim, Bertolucci não fomenta a institucionalização nessa mesma sociedade fragmentada e multi(dis)forme, desses conceitos esquecidos, ditos ultrapassados, e, assim, possamos ter como contemporâneos um novo trio Theo-Isabelle-Matthew. Suas incompatibilidades são preferíveis ao caretismo vigente.

por Eduardo Zanelato


Um Beijo Roubado – Três (ou mais) razões para ver

21/04/2008

Partindo da premissa da isenção jornalística, este post trará argumentos que justifiquem uma espiadela na produção ocidental de Wong Kar Wai, num contraponto ao post publicado abaixo.

1) Muito mais do que a beleza de Jude Law, Rachel Weisz, Norah Jones ou Natalie Portman, o diretor traz uma longa – sim, o filme é longo – narrativa sobre a fragmentação e o caos da sociedade, ao que alguns chamam pós-modernidade. Oriental que é, Kar Wai não dispensa planos mais longos, cenas mais extensas, e isso é bom em alguns casos, como as primeiras conversas no bar de Law.

2) Os planos ‘escondidos’ por trás dos vidros repletos de inscrições dão um tom metalingüístico ao longa, numa proposta estética caótica, confusa e cheia de informações que às vezes confunde o espectador. E ainda assim, dentro desse caos se acha uma beleza impressionante – com a ajuda fundamental dos olhos firmes de Norah e o sotaque britânico de Law.

3) A cena do beijo é, sim, autêntica. Ok, é clichê do clichê, mas ele consegue reinventá-lo e envolve a cena num misto de significações e romantismo incrível, seguindo a postura adotada ao longo de todo o filme. Aposto que alguns saem das salas loucos por um pedaço de torta de blueberry.

4) A trilha sonora. Cat Power, Norah Jones e cia. mandam muito bem, casando as cenas noturnas – às vezes soturnas – cheias de neon e fumaça a um ambiente jazzístico quase dialético. Quero a minha cópia assim que o CD sair. Enquanto não sai, aliás, recomendo a todos o Jazz Masters. Um tanto mais eclético e animado, deve-se ressaltar, mas segue o estilão da trilha do filme. Ao menos para leigos…

Por fim, concordo que, sim, existem cenas desnecessárias. A fase dramática do policial, por exemplo, poderia ter sido reduzida pela metade. Mas Won Kar Wai dialoga com o amor, com a pós-modernidade e com o caráter fragmentário dos dias atuais. E sem perder a ternura. Se às vezes os blockbusters são necessários, essas peças ‘cabeça’, meio pesadas, são fundamentais para uma saudável reflexão do presente, muito embora seja mais cômodo e fácil dizer que Jude Law e os gritinhos subseqüentes sejam o motivo mais plausível para visitar os cinemas.

+++ Vale, sim, assistir. De qualquer forma, o trailer abaixo permite que você tire suas próprias conclusões.