
Leonardo DiCaprio, o principal discípulo do Nobel da Paz Al Gore, é quem produziu essa demorada apresentação de slides em que convida Stephen Hawking para dizer que “a Mãe Natureza está pedindo socorro” ou então chama Mikhail Gorbatchev para lembrar-nos que, “em um universo tão grande, o homem não pode pensar que é superior a todas as outras espécies”. Cientistas, onguistas, jornalistas dos cadernos ambientais, todos eles passam duas horas repetindo tudo aquilo que você já ouviu nas aulas de ecologia da 3ª série.
Por combinar seqüências de fotografias padrão com monólogos de acadêmicos, que aparecem sempre num cenário de estúdio com fundo azul, A Última Hora não é cinema. Não é nem mesmo um programa de televisão – quem transmitiria duas horas ininterruptas de baboseira?
Nem mesmo as intervenções de DiCaprio durante o filme garantem um quê cinematográfico. Muito pelo contrário. Sempre que aparece, a câmera focaliza o ator (no caso, o apresentador do filme, se é que isso existe) e deixa o plano de fundo, que é geralmente uma bela paisagem natural, desfocado. Um recurso idêntico ao utilizado pelo programa Globo Ecologia nas inserções do ator (e apresentador de TV, isso sim existe) Cláudio Heinrich – a comparação é inevitável, até porque os dois atores são parecidos.
Embora tudo o que seja dito no filme seja o óbvio, e que se trocássemos os cientistas que prestam depoimentos por artistas engajados o resultado seria o mesmo, um equívoco gravíssimo merece ser ressaltado: não há espaço para os especialistas que discordam da visão apocalíptica de que estamos “na última hora”, de que se não fizermos nada agora, terá sido tarde demais. Só se dá voz aos que seguem a trilha de Al Gore.
A Última Hora é um spam. Assim como as mensagens de e-mail indesejadas, que agora já vão direto para o lixo eletrônico. Não é cinema.
O texto foi publicado originalmente em O Fino da Mostra.
Escrito por Luiz Felipe Fustaino