“Havia algo mágico nos anos 60. Havia união, coisa que não existe mais. O fato de estarmos sonhando juntos, cinema, política, música, jazz, rocnk’n’roll, sexo, filosofia; eram as coisas mais importantes para mim”. Essa é a sentença de Bernardo Bertolucci no vídeo de 52 minutos do making off de “Os Sonhadores”, de 2003.
Bertolucci recriou com delay de 35 anos o ambiente agitado da Paris de 1968, como pano de seu filme, que retrata a relação de descobertas de três jovens, dois irmãos gêmeos franceses e um estudante americano da mesma idade. A dúvida que permanece, entretanto, é porque a retomada do mítico período em 2003.
No filme, a demissão arbitrária do diretor da Cinèmathéque Française, em fevereiro de 1968, leva os três jovens a passarem mais tempo juntos em casa, num período de intensas descobertas sexuais e afetivas tão conturbadas quanto os acontecimentos políticos que se passavam paralelamente. É assim que se desenrola a história dos irmãos gêmeos Theo (Louis Garrel) e Isabelle (Eva Green) com o estudante americano Matthew (Michael Pitt).
A eclosão das manifestações de maio de 1968, que paralisaram a França quase que por completo, aparece apenas nas últimas cenas do filme e, numa união perversa de objetivos, representa também o ápice da crise anunciada que se espera acontecer entre os jovens durante todo o filme. Ali, há a ruptura definitiva entre revolucionários e governo, entre os gêmeos e o intruso americano.
Em 2003 seria difícil recriar a situação. Afinal, 35 anos depois estávamos – e, agora, 40 anos depois, ainda permanecemos – diante de uma sociedade fragmentada, caótica, multidirecionada. A quantidade se sobrepôs à qualidade, e isso se refletiu diretamente nos relacionamentos. Os casamentos se diluem, outros se formam rapidamente. O barato é se relacionar com uma, duas, três, quatro ou quantas mais pessoas forem necessárias para que se satisfaça algo que soa insaciável. Tudo isso dentro dos limites do ‘politicamente correto’ e ‘socialmente aceitável’. Segundo pregam os herdeiros de Plinio Corrêa de Oliveira (TFP), nada de transgredir. Isso é para os imorais.
A atmosfera libidinosa regada a vinho de “Os Sonhadores” não mais seria possível na sociedade politicamente correta de hoje. Mal podem os pobres serem chamados dessa maneira – cuidado! chamem-os ‘menos favorecidos’ – que dirá os jovens descobrirem-se da forma como propõe Bertolucci. Institucionalizou-se, depois de 1968, conceitos contestados à época, como a censura, a hipocrisia e a falta de massa crítica.
Talvez esteja aí a resposta da pergunta feita há pouco. Se para o diretor, como ele afirma no making of, ‘filmar o passado é filmar o presente’, Bertolucci nos propõe uma retomada do aventureirismo saudável de 1968, a incoseqüência inocente e os valores coerentes da época. A proposta, se tomada mais à diante, é um protesto.
Um protesto contra o cinema blockbuster que obedece às metas da indústria cultural, ou contra a política externa estúpida dos players da política internacional. Um protesto, enfim, contra essa caretice embrutecedora e rasa dos – muitos – jovens de hoje. Quem sabe, assim, Bertolucci não fomenta a institucionalização nessa mesma sociedade fragmentada e multi(dis)forme, desses conceitos esquecidos, ditos ultrapassados, e, assim, possamos ter como contemporâneos um novo trio Theo-Isabelle-Matthew. Suas incompatibilidades são preferíveis ao caretismo vigente.
por Eduardo Zanelato

Escrito por omirim 
Escrito por gabrielamayer