Um Beijo Roubado – Três (ou mais) razões para ver

21/04/2008

Partindo da premissa da isenção jornalística, este post trará argumentos que justifiquem uma espiadela na produção ocidental de Wong Kar Wai, num contraponto ao post publicado abaixo.

1) Muito mais do que a beleza de Jude Law, Rachel Weisz, Norah Jones ou Natalie Portman, o diretor traz uma longa – sim, o filme é longo – narrativa sobre a fragmentação e o caos da sociedade, ao que alguns chamam pós-modernidade. Oriental que é, Kar Wai não dispensa planos mais longos, cenas mais extensas, e isso é bom em alguns casos, como as primeiras conversas no bar de Law.

2) Os planos ‘escondidos’ por trás dos vidros repletos de inscrições dão um tom metalingüístico ao longa, numa proposta estética caótica, confusa e cheia de informações que às vezes confunde o espectador. E ainda assim, dentro desse caos se acha uma beleza impressionante – com a ajuda fundamental dos olhos firmes de Norah e o sotaque britânico de Law.

3) A cena do beijo é, sim, autêntica. Ok, é clichê do clichê, mas ele consegue reinventá-lo e envolve a cena num misto de significações e romantismo incrível, seguindo a postura adotada ao longo de todo o filme. Aposto que alguns saem das salas loucos por um pedaço de torta de blueberry.

4) A trilha sonora. Cat Power, Norah Jones e cia. mandam muito bem, casando as cenas noturnas – às vezes soturnas – cheias de neon e fumaça a um ambiente jazzístico quase dialético. Quero a minha cópia assim que o CD sair. Enquanto não sai, aliás, recomendo a todos o Jazz Masters. Um tanto mais eclético e animado, deve-se ressaltar, mas segue o estilão da trilha do filme. Ao menos para leigos…

Por fim, concordo que, sim, existem cenas desnecessárias. A fase dramática do policial, por exemplo, poderia ter sido reduzida pela metade. Mas Won Kar Wai dialoga com o amor, com a pós-modernidade e com o caráter fragmentário dos dias atuais. E sem perder a ternura. Se às vezes os blockbusters são necessários, essas peças ‘cabeça’, meio pesadas, são fundamentais para uma saudável reflexão do presente, muito embora seja mais cômodo e fácil dizer que Jude Law e os gritinhos subseqüentes sejam o motivo mais plausível para visitar os cinemas.

+++ Vale, sim, assistir. De qualquer forma, o trailer abaixo permite que você tire suas próprias conclusões.


Um Beijo Roubado – Três razões para não ver

19/04/2008

1.    Um Beijo Roubado é um filme chatíssimo. Os críticos da Folha estão tentando retirá-lo do purgatório em que se meteu desde sua primeira (e decepcionante) exibição no último Festival de Cannes. Mas é impossível – o filme é um porre. Para entender o porre, imagine assistir a um road movie cult romântico. Prefira o Recém-casados, com Ashton Punk’d Kutcher.

 

2.    Quem protagoniza o filme é a cantora Norah Jones. Sua personagem (Lizzie) sofre uma transformação que você talvez nunca tenha visto em filmes: uma menina insegura que se torna mulher. Inédito, né?! Acontece que Norah Jones, por não ser atriz, acaba convencendo nos momentos de insegurança. O grande problema é que a atriz não acompanha a personagem: a metamorfose de Lizzie, que seria o único trunfo do filme, não acontece.

 

3.    A tradução brasileira do nome do filme é infiel a My Blueberry Nights, mas surte ótimo efeito. Você só não vai dormir durante o filme porque quer ver o tal do beijo roubado. Traduzido ao pé da letra, Minhas Noites de Mirtilos teria o mesmo efeito de um tarja-preta.

 

+++ As mulheres têm uma única motivação para ver Um Beijo Roubado: Jude Law. Ataques histéricos de meninas poderão ser vistos até mesmo por quem preferir o cinema mais sério de São Paulo, o non-pipoca Reserva Cultural.