Crítica – Amores Brutos 

23/06/2008

Trilogia da Perda
Amores Brutos inicia uma trilogia de brilho e confirma a hipótese de que raros são os mestres que conseguem repetir a grandiosidade da obra-prima.

 Alejandro Gonzáles Iñárritu é um cineasta mexicano de 45 anos. Foi descoberto em 2000, com a produção de Amores Brutos (Amores Perros), um filme – com o perdão da simplificação – sobre a perda, os amores, a esperança e os problemas nos relacionamentos. O sucesso surpreendeu: era uma produção latina, com atores latinos e recursos latinos e, ainda assim, ganhou a crítica e o público internacional. A partir daí, Iñárritu virou destaque dos grandes jornais e das semanais norte-americanas e conquistou o bilhete de entrada para Hollywood.

No ano seguinte, o diretor fez 21 Gramas, filme que se passa nos Estados Unidos e segue o mesmo padrão do primeiro: três histórias, que se encontram em determinado momento, e provocam reflexões sobre a perda e sobre os relacionamentos. Desta vez, os atores são todos americanos, incluindo grandes nomes como Sean Penn, Benicio Del Toro e Naomi Watts. A semelhança com o primeiro filme levou Iñárritu a pensar em uma trilogia.

O terceiro e último filme, então, veio em 2006, Babel. Nele, o diretor vai do México para o mundo. As várias histórias se passam nos Estados Unidos, Marrocos, Japão e México. A produção também foi grandiosa, com um orçamento de 25 milhões de dólares, e atores como Brad Pitt e Cate Blanchett, além da volta de Gael García Bernal, que atuou em Amores Brutos.

Os três filmes têm muito em comum: a fórmula da narrativa com cronologia não-linear para mostrar o mesmo acontecimento repetidas vezes, sob o ângulo de cada personagem – os flashs vão e vêm na tentativa de explicar a história de cada um; os três são montagens tensas e dinâmicas, que deixam o espectador apreensivo; e os três são filmes emocionais, com a intenção de comover e paralisar, longe de qualquer pretensão intelectual.

Amores Brutos ficou de lado depois que a trilogia se completou. Recentemente, com a explosão de filmes que têm Gael García Bernal no elenco, o filme foi relembrado e voltou às prateleiras de indicações. Mas o mérito ficou com o filme todo, e não só com Gael: Amores Brutos se manteve na sessão de favoritos por ser o melhor filme da trilogia. Os dois milhões de dólares usados para produzi-lo foram suficientes para superar os outros dois, mesmo com um orçamento mais de dez vezes menor.

Nele, Iñárritu explora três histórias relacionadas com cachorros – daí o nome original, Amores Perros – que se cruzam em uma batida de carro. O cunhado que gosta da cunhada, um casal de amantes e um quase morador de rua que sofre a perda da família que abandonou têm a vida mudada a partir do acidente.

As histórias são bem costuradas. O diretor deu conta das informações essenciais para que cada personagem seja conhecido a fundo e ele não se perdeu na vida de cada um. Nos cortes, nos closes e nos ângulos de filmagem, entramos na história para participar da vida daquelas pessoas. Os takes são de tal forma significativos que não são necessárias mais de duas cenas de cada personagem para termos a sensação de que somos íntimos dele. E o fato de a câmera acompanhar os movimentos físicos dos personagens aumenta a impressão de que estamos próximos. A filmagem parece ter sido feita com uma câmera de mão, para que nós possamos acompanhar os passos, a corrida e os choques de cada um da história.

No entroncamento das vidas dos personagens, fica evidente a relação entre pessoas de realidades sociais, culturais e econômicas muito diferentes. Além disso, Iñárritu faz com que as pessoas dependam uma da outra na narrativa. Nesse momento, o diretor consegue fazer com que nos sintamos angustiados assistindo o filme, refletindo sobre quando precisaremos de alguém que não conhecemos.

Gael Garc�a Bernal se consagrou internacionalmente em Amores Brutos

Iñárritu conta a vida das pessoas prestando atenção em todas outras as pessoas que cruzam o caminho dela. Ele deixa no ar a questão do destino, de quantas vezes cruzamos com pessoas nas ruas sem perceber e quantas vezes conhecemos alguém achando que nunca o vimos antes, apesar de ter passado tantas vezes no nosso caminho.

O drama que Iñárritu propõe é contundente, com imagens que grudam na mente. Amores Brutos consegue ser um filme violento sem sangue e armas. As atuações são impecáveis e ajudam a dar consistência para a narrativa, além de afastar o risco de as histórias cheias de sofrimento se tornarem melodramas de novela.

O elenco principal é, sem dúvida, uma atração imperdível do filme. Com destaque para Emilio Echevarria, que faz o papel de Chivo, o morador de rua. Os atores que compõem a ficha técnica da produção competem de igual para igual com os nomes do topo da lista de Hollywood que atuam nos outros dois filmes da trilogia de Iñárritu.

Os quatro prêmios de cinema que recebeu e a indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro comprovaram a grandeza de Amores Brutos e mostraram que as dificuldades do cinema latino-americana só engrandecem os bons filmes produzidos nessa região do mapa.

O efeito que Iñárritu consegue em Amores Brutos poucos filmes hollywoodianos alcançam. O diretor comove o espectador ao mesmo tempo em que o deixa na posição de frieza e indiferença à condição humana. A comoção vem pela perplexidade: o filme termina e o espectador está congelado na frente da tela, impressionado com a quantidade de finais infelizes; a frieza vem pelo motivo da comoção: a tragédia com os cães, a morte, o sofrimento e a dor desses animais espalha a compaixão e a revolta com o fim deles; a culpa vem logo em seguida: não entendemos por que a emoção aflorada veio pelos cachorros e não por algum personagem do filme, já que todos, sem exceção alguma, têm um final infeliz, com perda e sofrimento.

As duas horas e meia de filme poderiam ser editadas sem prejudicar a narrativa. Mas os pequenos buracos na história parecem propositais: são o momento de um silêncio angustiante, em que vivemos a dor do personagem como se fosse nossa. Se a trilogia de Iñárritu é sobre a perda, é Amores Brutos que consegue passar a mensagem. Nenhum dos dois outros da trilogia transmitem em tamanha proporção o recado de que todos somos também aquilo que perdemos.

Por Gabriela Mayer


Blindness: trailer-teaser e primeiras impressões

4/04/2008

Agora, Inês é morta. A Miramax já divulga o primeiro trailer de Blindness, co-produção Brasil/Canadá/Japão dirigida por Fernando Meirelles. Digo que é morta porque o último post do diretor em seu Blog de Blindness demonstrava a insegurança da ‘versão final’ que tinha do filme. Ele a achava pesada demais, o que foi confirmado em teste da Miramax em Londres. Vale perder cinco minutos lendo o texto todo.

De qualquer forma, as alterações a pedido do estúdio já devem ter sido feitas e a impressão – por mais superficial que seja – desse primeiro excerto é até que leve. Na metade, a coisa muda de figura e o que se vê são cenas de caos. Fica fácil identificar, para quem acompanhou as gravações em São Paulo de alguma forma, as cenas gravadas por aqui. São as mais excruciantes; o monte de concreto e as locações bem escolhidas dão a sensação de solidão.

Enfim, abaixo você pode conferir esse trailer-teaser. Provavelmente, com o lançamento do site e do trailer, Meirelles deve conseguir lançar o filme em Cannes, como já declarou que lutava para conseguir. O lançamento para nós, reles mortais, deve ser apenas em setembro. Aqui, entretanto, não posso deixar de me gabar. Assisti as gravações no Minhocão, troquei duas insignificantes palavras com Mark Ruffalo, esbarrei no Danny Glover e, melhor de tudo, vi a Alice Braga ali, do meu lado. E ela é linda, devo confessar.

Agora, nos resta aguardar por mais informações e, claro, pelo filme.

Bom final de semana a todos!