Meu documentário predileto chegou às locadoras: Palavras Cruzadas. Vi pela primeira vez no Canadá, em julho de 2006, quando ainda se chamava Wordplay e eu duvidava que um dia pudesse chegar ao Brasil, mesmo que em DVD – quase comprei o DVD importado recentemente. Não deve ser o melhor documentário que há, mas é o meu predileto.
Para quem gosta de palavras cruzadas, é obrigatório. Quem são as celebridades viciadas em palavras cruzadas, quem cria as palavras cruzadas, qual é o processo de criação, qual é o perfil dos jogadores, tudo isso é muito bem contado na primeira parte do documentário, que funciona como uma espécie de “almanaque das cruzadinhas”. A segunda parte é eletrizante: muitos dos personagens que eram entrevistados desse “almanaque” viram protagonistas de um campeonato de cruzadistas.
Para quem não liga para cruzadinhas, mas se interessa por cinema, Palavras Cruzadas nos faz lembrar que documentários não precisam, necessariamente, ser filmes sobre a desigualdade humana, sobre os conflitos sociais, sobre a miséria, sobre a política, sobre a opressão ou então sobre o aquecimento global. Documentários são filmes de não-ficção. Palavras Cruzadas é um excelente filme de não-ficção.
PS: A edição de fevereiro da revista Piauí traz uma imperdível reportagem sobre passatempos, em que são citados vários episódios de Palavras Cruzadas (na época da reportagem, ainda era apenas Wordplay). O texto é excelente, mas, como tudo em Piauí, muito longo. E a história mais emblemática do filme só aparece nas últimas linhas do texto. Antecipo-as abaixo. Quem quiser ler a matéria inteira (recomendo!), tem acesso a ela clicando aqui.
Data: 5 de novembro de 1996, dia da eleição presidencial que decidiria se o novo ocupante da Casa Branca seria o democrata Bill Clinton ou o republicano Bob Dole. Naquela manhã de terça-feira o New York Times saiu com um diagrama que tinha um mesmo enunciado para as casas 39 e 43, na horizontal: “Manchete do jornal de amanhã”. Duas respostas diferentes cabiam exatamente nos mesmos espaços, exigindo um extraordinário malabarismo múltiplo nos enunciados verticais. As duas respostas corretas, criadas pelo cruciverbalista Jeremiah Farrell, um matemático aposentado que se tornou lenda desde então, eram: CLINTON ELEITO E BOB DOLE ELEITO. Foi um furor. Leitores republicanos crucificaram o jornal por estar fazendo campanha de última hora para o candidato democrata, e vice-versa. Até que perceberam a genialidade do diabólico quebra-cabeças e silenciaram, envergonhados.
No dia seguinte, a manchete do jornal foi “Clinton eleito”. As urnas tinham matado a charada do país.
Luiz Felipe Fustaino lançou há poucos dias o blog Já nas Bancas (http://janasbancas.net), principal motivo de sua ausência em Ewaldos Filhos.
O documentário brasileiro Condor, de Roberto Mader, estréia nesse feriado de 1º de maio. Conta o que foi a Operação Condor, uma poderosa arma de repressão que integrou as ditaduras da Argentina, do Chile e do Brasil.
No site da Faculdade Cásper Líbero, explico porque o filme deve ser visto com cautela. Ao colocar alguns ditadores contra a parede (Jarbas Passarinho, Manuel Contreras), consegue depoimentos importantíssimos para a História. Mas ao se eximir de questionar o porquê da truculência dos militares e ao apresentar as esquerdas como coitadinhas, o filme não assegura credibilidade.
[O diretor Roberto] Mader consegue responder à pergunta “como foi a Operação?” apenas porque aquele material, repleto de torturas, mortes e desaparecimentos, compromete apenas os réus de seu filme. Todavia, ao deixar de lado qual seria a razão para a criação de um esquema continental de repressão, fica a errônea impressão de que os militares são gratuitamente truculentos, ou seja, de que matam e torturam por puro instinto cruel e sanguinário.(leia a íntegra do texto Condor faz cafuné nas esquerdas)
O principal festival de documentários do país, promovido em várias capitais do Sul e do Sudeste, se chama É Tudo Verdade. Sempre fui resistente ao nome: documentaristas têm com a verdade uma relação diferente da que os jornalistas nutrem por ela. Geralmente, documentaristas estão comprometidos ou com o pobrismo (a mania de contar histórias de gente pobre e desdentada pelo simples fato de que a imagem delas na telona causa um efeito desolador) ou com o esquerdismo (como é o caso de Condor).
Contra o waterboarding *** Para denunciar uma prática de tortura condenável da qual os EUA (CIA, mais especificamente) são acusados de praticar, a Anistia Internacional veiculará no Reino Unido um comercial que já circula na internet. Com o bordão “O filme que a CIA não quer que você veja”, o filme de 1′30” é chocante no final. Confira, comente.
Canadá não é uma fria *** E, por fim, para quem quer saber o que está acontecendo pelo mundo, fica a dica: até 27 de abril (este domingo), acontece em Toronto, no Canadá, o Hot Docs Canadian International Documentary Festival, um dos maiores festivais do gênero da América do Norte. A versão canadense do ‘É Tudo Verdade’ apresenta uma gama enorme de filmes, que tratam desde o processo criativo de artistas contemporâneos islandeses até de um caso polêmico de pornografia em Israel, passando por um forte documento sobre acidente em mina no México. Abaixo, você confere o trailer do documentário de Rody Joffroy, chamado “Los Caídos” (The Fallen, no catálogo da mostra).
Spike Lee e a Humanidade
*** Spike Lee, veja só, montará um filme a partir de produções amadoras feitas em celular. A idéia surgiu após uma parceria com a Nokia e no final do ano a produção deverá ser lançada a partir da junção de conteúdo colaborativo. A união dos diversos filmes se dará a partir da música, já que o mote do filme final será ‘como a música conta a história da humanidade’. Ainda dá para participar, basta ter um celular com câmera. Acesse, aqui, o site da Nokia Productions.
***Cut!é uma sessão semanal deste blog que traz notas garimpadas nos últimos sete dias. Coisas bacanas de saber – e ver – estarão aqui. A coluna estreou hoje.
***Cut! Leitura rápida e informação esperta. Para ler e assistir.
Mais uma pequena dica para quem gosta de filmes que mostram partes escondidas da nossa cultura. No dia 6 de abril (ou seja, nesse domingo), às 14h30, será mostrado no Centro Cultural de Juventude, o vídeo-documentário “Freestyle: um estilo de vida”.
Nele, será mostrado parte da cultura hip-hop. Além disso, o diretor do filme, Pedro Gomes, estará lá para conversar com os interessados. Para quem quer ficar a par de toda a programação do Centro Cultural, é só bater cartão no blog http://ccjuve.prefeitura.sp.gov.br/
Local: Avenida Deputado Emílio Carlos, 3641, Vila Nova Cachoeirinha. Telefone: 3984-2466 No link acima, também existem dicas de como chegar lá.