Saldo do final de semana

17/06/2008

Amigos, relato aqui o saldo ‘cinematográfico’ do final de semana que se passou.
Logo na sexta-feira, cometi a locação de dois filmes que, por não tê-los assistido, me causava certa angústia.

*** Eis que comecei por “Zona do Crime” (La Zona, 2007): aclamado filme mexicano (dirigido por um espanhol) nos últimos festivais que acompanhei, o filme retrata uma situação bem verossímil a terras tupiniquins. ‘La Zona’ é um condomínio de altíssimo padrão na Cidade do México, cujos muros separam riqueza e miséria. A tensão social se explicita quando um vendaval facilita o acesso de moradores da favela ao condomínio; uma moradora morre estrangulada, dois criminosos e um inocente são assassinados pelos moradores. Mas resta um jovem garoto, que foge – não da polícia, veja só – dos moradores sedentos por vingança. O filme é triste, surpreendente, quase catártico. Vale assistir, mas com o estômago preparado. Abaixo, o trailer.

*** No sábado à noite me rendi à falta de bons filmes em cartaz e fui, cabisbaixo mas bem acompanhado, assistir ao blockbuster “Jogos de Amor em Las Vegas” (What Happens in Vegas, EUA, 99min.). Diversão garantida e cenas bem interessantes do duo Ashton Kutcher e Cameron Diaz. Vale perder R$9 (estud).

*** Na volta, filme mais consistente, pra não desacostumar. Foi a vez de “Leões e Cordeiros” (“Lions for Lambs”, EUA, 2007, 92min) , que repensa a invasão americana ao Oriente Médio a partir da óptica acadêmica (professor e alunos), republicana (senador interpretado por Tom Cruise) e da imprensa chapa-branca americana (aqui personificada em Meryl Streep, que se especializa no tipão jornalista – já que viveu a versão cinematográfica de Anne Wintour, da Vogue EUA em “O Diabo Veste Prada”). O final é meio ‘hã-e-agora-o-que-eu-faço?’, mas vale pelos diálogos conflitantes e pelo tema, sempre atual – às vezes até superexplorado, diga-se. Veja abaixo o trailer, também.

*** E, por fim, para quem tem TV a cabo, domingo à noite é dia de surpresa. Foi com satisfação que, zapeando, parei no AXN, que reprisava “Filadélfia” (Philadelphia, EUA, 1993, 125min). O filme apresentava o drama da AIDS no início da década de 1990, quando o tema ainda era – ainda é? – tabu. O enredo é excelente: Hanks vive um advogado promissor, mas que se vê barrado pela doença e pela opção sexual (Antonio Banderas vive o namorado de Hanks no filme). Quando seus chefes – advogados conservadores – descobrem a doença, o personagem é demitido. Até aí, tudo bem. O filme esquenta e toma forma quando entra em cena o advogado de acusação (defendendo Hanks): homofóbico, ele supera o preconceito e ‘frita’ os réus, colocando-os em situações constrangedoras. O fim é um tanto melodramático, sim, mas vale assistir: a películo foge dos reducionismos gays de “Brokeback Mountain”, rechaçando cenas mais explícitas e desnecessárias ao enredo do filme. Curiosidade: dos 53 atores gays que participaram do filme, 43 morreram no ano seguinte de complicações da AIDS. Abaixo, um aperitivo.
Quem quiser assistir sem pagar, pode conferir dividido em várias partes, pelo YouTube

P.S.: A música meio deprê de Bruce Springsteen levou Oscar de melhor canção original.


Você é mais esperto que um aluno da 5ª série?

29/03/2008
Acaba de sair em DVD A Última Hora, uma versão cinematográfica daquelas apresentações em Powerpoint que você recebe aos montes por e-mail

Última Hora Leonardo DiCaprio

Você está lendo seus e-mails quando aparece uma mensagem com o título “Pense Nisso”. Ou então “Pobre Planeta”. Além do seu nome, outros quinhentos estão na lista de destinatários da mensagem. Junto a ela, segue anexa uma apresentação em Powerpoint, dessas bem toscas, que combinam recortes fotográficos com frases de efeito. Geralmente, você demora uns três minutos para chegar até o último slide e voltar ao trabalho. Agora imagine que uma dessas apresentações durasse duas horas.

Leonardo DiCaprio, o principal discípulo do Nobel da Paz Al Gore, é quem produziu essa demorada apresentação de slides em que convida Stephen Hawking para dizer que “a Mãe Natureza está pedindo socorro” ou então chama Mikhail Gorbatchev para lembrar-nos que, “em um universo tão grande, o homem não pode pensar que é superior a todas as outras espécies”. Cientistas, onguistas, jornalistas dos cadernos ambientais, todos eles passam duas horas repetindo tudo aquilo que você já ouviu nas aulas de ecologia da 3ª série.

Por combinar seqüências de fotografias padrão com monólogos de acadêmicos, que aparecem sempre num cenário de estúdio com fundo azul, A Última Hora não é cinema. Não é nem mesmo um programa de televisão – quem transmitiria duas horas ininterruptas de baboseira?

Nem mesmo as intervenções de DiCaprio durante o filme garantem um quê cinematográfico. Muito pelo contrário. Sempre que aparece, a câmera focaliza o ator (no caso, o apresentador do filme, se é que isso existe) e deixa o plano de fundo, que é geralmente uma bela paisagem natural, desfocado. Um recurso idêntico ao utilizado pelo programa Globo Ecologia nas inserções do ator (e apresentador de TV, isso sim existe) Cláudio Heinrich – a comparação é inevitável, até porque os dois atores são parecidos.

Embora tudo o que seja dito no filme seja o óbvio, e que se trocássemos os cientistas que prestam depoimentos por artistas engajados o resultado seria o mesmo, um equívoco gravíssimo merece ser ressaltado: não há espaço para os especialistas que discordam da visão apocalíptica de que estamos “na última hora”, de que se não fizermos nada agora, terá sido tarde demais. Só se dá voz aos que seguem a trilha de Al Gore.

A Última Hora é um spam. Assim como as mensagens de e-mail indesejadas, que agora já vão direto para o lixo eletrônico. Não é cinema.

LUIZ FELIPE FUSTAINO
O texto foi publicado originalmente em O Fino da Mostra.