O documentário brasileiro Condor, de Roberto Mader, estréia nesse feriado de 1º de maio. Conta o que foi a Operação Condor, uma poderosa arma de repressão que integrou as ditaduras da Argentina, do Chile e do Brasil.
No site da Faculdade Cásper Líbero, explico porque o filme deve ser visto com cautela. Ao colocar alguns ditadores contra a parede (Jarbas Passarinho, Manuel Contreras), consegue depoimentos importantíssimos para a História. Mas ao se eximir de questionar o porquê da truculência dos militares e ao apresentar as esquerdas como coitadinhas, o filme não assegura credibilidade.
[O diretor Roberto] Mader consegue responder à pergunta “como foi a Operação?” apenas porque aquele material, repleto de torturas, mortes e desaparecimentos, compromete apenas os réus de seu filme. Todavia, ao deixar de lado qual seria a razão para a criação de um esquema continental de repressão, fica a errônea impressão de que os militares são gratuitamente truculentos, ou seja, de que matam e torturam por puro instinto cruel e sanguinário.(leia a íntegra do texto Condor faz cafuné nas esquerdas)
O principal festival de documentários do país, promovido em várias capitais do Sul e do Sudeste, se chama É Tudo Verdade. Sempre fui resistente ao nome: documentaristas têm com a verdade uma relação diferente da que os jornalistas nutrem por ela. Geralmente, documentaristas estão comprometidos ou com o pobrismo (a mania de contar histórias de gente pobre e desdentada pelo simples fato de que a imagem delas na telona causa um efeito desolador) ou com o esquerdismo (como é o caso de Condor).
João Miguel é um tremendo ator. Depois de chamar a atenção em Cinema, Aspirinas e Urubus (2005) e em O Céu de Suely (2006), ele ainda precisava de um filme para brilhar sozinho: o filme se chama Estômago. Assim como nos filmes em que foi revelado, João Miguel volta a interpretar um nordestino.
Estômago se divide em dois momentos, intercalados ao longo de todo o filme: no primeiro deles, o ator interpreta Raimundo Nonato, um migrante nordestino que tenta a vida em São Paulo; no segundo, ele é Nonato Canivete, agora tentando a vida na cadeia. Logo na primeira cena do filme, em que ele conta, com humor, a história do queijo gorgonzola ao parceiro de cela, fica evidente o que virá dali em diante: um filme calcado no talento de seu protagonista.
João Miguel é quem dá um jeito nas razoáveis atuações do restante do elenco. Também cabe a ele nos fazer rir e prestar atenção a uma história sem qualquer surpresa, mas que agrada pela despretensão – Estômago tange assuntos como a situação carcerária e o submundo da prostituição sem, em nenhum momento, virar denúncia. Cabe também a ele dar uma jeito nas fracas atuações de seus colegas de cena.
Assim como seu personagem, que será bem sucedido nos dois momentos do filme devido aos dotes na cozinha, João Miguel dá o tempero para um filme que, sem ele, seria dos mais indigestos.