Em “O Bandido da Luz Vermelha”, Rogério Sganzerla revoluciona o cinema nacional, mas exagera ao não representar a realidade
Em uma época conturbada da história brasileira – o ano de 1968, em que foi instaurado pela ditadura militar o Ato Institucional N° 5, o famoso AI-5 – diretores nacionais de cinema tiveram de adaptar-se à nova realidade que tomava conta da liberdade política e também de imprensa.
Assim, surgiu o Cinema Marginal, que se desprendia do Cinema Novo – também sofredor de censura prévia e com baixíssimos orçamentos – para radicalizar com a sociedade e mostrar o desencantamento com a mesma. Nessa vertente, muitos diretores fizeram sua fama no meio artístico e ficaram conhecidos como ícones de seu tempo.
O principal deles foi Rogério Sganzerla, que fez duas produções que retratam exatamente esse radicalismo: “O Bandido da Luz Vermelha” (1968), o mais conhecido, e “A Mulher de Todos” (1969), que utilizam alguns atores em comum, como a bela Helena Ignez (que faz a prostituta Janete Jane no primeiro e Ângela Carne e Osso, a protagonista do segundo) e Paulo Villaça (personagem principal do “Bandido” e intérprete de Ramon no segundo).
“O Bandido da Luz Vermelha”, como o próprio nome lembra, baseia-se na história de João Acácio Pereira da Costa, um assaltante de residências de luxo da cidade de São Paulo que estuprou mais de cem mulheres e roubou um número semelhante de casas. Acácio era perfeccionista e tinha a mania de grandeza como principal traço, além de ser extremamente inteligente.
Segundo Edson Flosi, professor da Faculdade Cásper Líbero, ex-repórter policial da Folha de São Paulo e um dos jornalistas que cobriram a história do bandido, Acácio tornou-se praticamente um “super-herói” pela imprensa da época. “Certamente ele virou um personagem da história brasileira. Cada um pensa no bandido de um jeito”, explica.
Sganzerla pensou no Luz Vermelha de uma forma peculiar para seu filme. Na produção do diretor, Acácio – que não tem seu nome citado – era semi-analfabeto e não se preocupava muito em ser discreto. No entanto, a realidade era outra. “O João Acácio entrava sempre nas residências com luvas, chapéu e um lenço cobrindo a boca. Ele também escolhia o horário entre 4 e 6 horas da manhã, que era o horário mais pesado do sono, para assaltar”, lembra Flosi.
Se há discrepâncias entre a realidade e a representação do ladrão no filme, semelhanças também podem ser encontradas, caso o espectador preste atenção em alguns detalhes. Um deles é o modo como João Acácio entrava nas mansões, quase sempre do mesmo jeito. “Ele (Luz Vermelha) pegava macacos de carros que ele usava para esticar as grades das janelas, e assim ele entrava”, diz o ex-jornalista. Nas cenas em que o bandido invade as mansões, isso é retratado com fidelidade, assim como a frieza característica do criminoso, bem representada e muito bem interpretada por Paulo Villaça, o ator que dá vida ao personagem.
Para os fãs da história de João Acácio Pereira da Costa, no entanto, o filme chega a desapontar. Na produção, o bandido aparece como um ser anarquista, apesar de quase analfabeto, e atuando em um bando, a “Guerrilha Mão Negra”, que era uma espécie de gangue do político corrupto J.B. da Silva, estereótipo dos militares que comandavam o país. Segundo Edson Flosi, no entanto, Acácio agia sempre sozinho, sem comparsas nem capangas.
Além disso, “O Bandido da Luz Vermelha” não retrata a primeira prisão de João Acácio, por receptação, quando este apresentou uma identidade falsa na polícia, dizendo ser Roberto da Silva. Foi aí que o bandido, que morava em Santos (outro episódio da vida de Acácio não mostrada), deixou a primeira pista para sua captura pela polícia, que o deixou 30 anos recluso.
Captura essa que não acontece no filme de Sganzerla. Depois de ter sido delatado por sua ex-parceira, a prostituta Janete Jane (na vida real, Acácio foi reconhecido por uma vítima, que recebeu três tiros e sobreviveu), o bandido cai em um grande conflito interno e comete o suicídio ao enrolar-se em fios elétricos e cair no chão eletrocutado.
Com tantas contradições entre a vida real e a história produzida pelo diretor Rogério Sganzerla, chega-se a conclusão que a história de João Acácio Pereira da Costa serve apenas como pano de fundo para um filme que protesta contra a ditadura e a escracha de maneira veemente (até mesmo supostos discos voadores aparecem no dia da morte do Luz Vermelha) em sua época mais “linha dura”.
Enquanto o bandido e a vizinhança da “boca do lixo”, onde o protagonista morava, diziam que “o terceiro mundo vai explodir, e quem tiver (sic) usando sapato não sobra”, seu diretor fez exatamente o que os personagens diziam: Acácio, um homem que tinha vários sapatos e roupas vermelhas, não sobrou na história. Aliás, faltou. E muito.
Por Henrique Guidi
Escrito por henriqueguidi
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