Crítica – Bobby

9/04/2008

As ilusões de uma América liberal

A vitória do medo sobre a esperança é a teoria de Bobby para explicar uma suposta crise dos valores norte-americanos

 

por LUIZ FELIPE FUSTAINO

 

O que seriam os EUA se o democrata Robert F. Kennedy não fosse assassinado e vencesse as eleições presidenciais de 1968? Emilio Estevez usa as duas horas do seu filme Bobby, que acaba de sair em DVD no Brasil, para responder a essa pergunta. Estevez não se desprende da sua visão pessimista do momento presente, imaginando como seria um país governado pelos democratas, e não pelos republicanos, que predominaram no comando dos EUA de 1968 para cá.

 

Bobby parece ter sido filmado por um aspirante a Robert Altman. Traz uma porção de histórias entrecortadas, dessas que não são diretamente ligadas entre si, mas que se completam para tentar compreender toda a sociedade de uma época. Há o traficante maneiro que oferece LSD para os jovens engravatados. Há a cantora decadente que, seduzida pela fama, rompeu com os limites dos bons-modos e passa o dia embriagada. Há o falso-moralista, há o latino oprimido, há uma série de histórias sendo contadas ao mesmo tempo para dar um panorama daquela sociedade.

 

Mais Altman: um elenco de atores bastante conhecidos – são pelo menos 15 atores de peso, desde os representantes da velha-guarda Anthony Hopkins e Martin Sheen (pai de Emilio Estevez) até a nova geração, com Elijah Wood, Lindsay Lohan e Shia LaBeouf. E cada história contada é um pedaço da resposta de Emilio Estevez à pergunta que conduz seu filme.

 

Colocar uma infinidade de atores famosos em um filme com tanta pretensão política deixa claro que Bobby é uma tentativa de se contar a história pela ótica dos artistas. É só pensar quais são os movimentos em que artistas costumam se envolver, os políticos com quem costumam se alinhar e logo se entende qual será a versão da história contada por Emilio Estevez e sua trupe.

 

A sociedade americana em 1968 é, segundo Bobby, uma sociedade em transformação, mas que tem sua metamorfose interrompida pela morte de Robert Kennedy. Os atentados a políticos americanos (Robert Kennedy e, antes dele, Martin Luther King) teriam, assim, gerado o medo que fez com que os americanos deixassem de lado a esperança de um novo país. Só isso justificaria a hegemonia do partido Republicano nos 40 anos que distanciam a morte de Bobby do segundo mandato de George W. Bush.

 

Bobby reduz toda a sociedade americana a essa amedrontada elite liberal, como se os conservadores não tivessem qualquer importância na tomada de decisões para o rumo que o país tomaria. É como os tão esclarecidos liberais tivessem sido silenciados pelo medo e, com isso, uma minoria conservadora passasse a dar as cartas temporariamente, à espera do momento em que seus adversários ressurgiriam e mostrariam porque tomam decisões muito mais sábias do que entrar em uma guerra por petróleo no Oriente Médio.

 

O pior é que nem mesmo o verdadeiro pensamento liberal é representado pelos seus personagens, mas as preocupações da classe artística americana é que são retratadas (e simplificadas) nas várias histórias do filme. Emilio Estevez parece se contaminar pela visão de um ator que viveu apenas na Califórnia, que sempre esteve cercado por atores devido à fama do pai, Martin Sheen, e também à escolha profissional do irmão, o também ator Charlie Sheen.

 

Durante o filme, exibem-se alguns trechos de discursos de Kennedy. A edição feita por Emilio Estevez deixa ainda mais patente não só a capacidade de comover multidões e de encher de lágrimas muitos olhos esperançosos mas também a pobreza do conteúdo de suas falas. O pré-candidato é apresentado como um pastor carismático, não como um político virtuoso. A imagem de Kennedy é muito semelhante à de Obama, candidato que também tem a esperança como raiz de seu principal slogan – “Yes, we can” (sim, nós podemos).

 

O filme Bobby é como o personagem Bobby. Tenta trazer uma série de respostas, uma série de questionamentos, mas no final fica a impressão de que é tudo discurso, e que sobra pouca sinceridade naquilo tudo. Quer dizer tanto que não acaba dizendo nada. Não conta nenhuma história, não deixa tempo para que o espectador crie empatia por nenhum de seus personagens.

 

Pretensioso como todo filme político, Bobby quer convencer o espectador-eleitor a dar seu voto para a esperança de um novo mundo. Pode até ser que boa parte do público se deixe levar, mas peca ao se esquecer que os espectadores de filmes independentes americanos e seus dilemas não são nem mesmo parecidos com a cabeça do americano.

 

 

BOBBY

(Bobby, EUA, 2006)

Direção: Emilio Estevez

Com: Anthony Hopkins, Demi Moore, Sharon Stone


Uma volta ao passado

7/04/2008

A partir desta terça-feira (08/04), o blog Ewaldos Filhos iniciará uma série de posts sobre as criações cinematográficas do ano de 1968, data na qual foi instaurado pelo governo militar o Ato Institucional N° 5, que de fato oficializou a linha dura dos manda-chuvas brasileiros e instalou a censura em jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão e também no meio artístico aqui no Brasil.

No entanto, Ewaldos Filhos também tratará de produções internacionais feitas em ou sobre o ano de 1968. Um exemplo será uma análise do filme Bobby (1968), do diretor Emilio Estevez, filho mais velho do ator Martin Sheen e um dos que fizeram episódios para as séries de televisão “Cold Case” e “CSI: NY”, duas das mais consagradas dos Estados Unidos.

Continuando o giro pelo mundo dos filmes, nossa parada será a Europa, mais exatamente a França. Se no Brasil o AI-5 prometia acabar com toda e qualquer liberdade, estudantes daquele país faziam a revolução de maio de 1968. Desse período, nasceu um romance entre dois jovens que faziam parte de um mesmo grupo de amigos. Esse é o enredo de Amantes Constantes (2005), de Philippe Garrel. Um drama com 178 minutos devidamente comentados por nossa equipe.

A parte nacional do “festival” terá alguns filmes da época que tornaram-se ícones de seus gêneros. Logo na estréia da série, o blog trará das margens da cinegrafia O Bandido da Luz Vermelha (1968), devidamente censurado pelos militares. Com restrições orçamentárias, o diretor Rogério Sganzerla baseou-se na história de um dos maiores bandidos da história do país e mistura ficção e realidade em uma ótima produção – se levadas em conta a vigia dos governantes e a falta de dinheiro característica dos filmes do Cinema Marginal.

Do mais, caro leitor, você também poderá conhecer mais de outras grandes produções, tanto do Brasil quanto do mundo, todas referentes ao ano de 1968, o chamado “ano das transformações”.

Boa leitura e bom divertimento!

Equipe Ewaldos Filhos

Postado por: Henrique Guidi