Liberdade, amor e fraternidade
Garrel foi feliz em Amantes Constantes por ter sido despretensioso na reprodução histórica do Maio de 68 e insistente em mostrar os sentimentos que afloravam no período – o amor e a liberdade.

Philippe Garrel é um dos esquecidos da Nouvelle Vague. Seu primeiro filme, Les Enfants Desascordés, é de 1964, o auge desse movimento artístico. Mas foi só em 2005, com Amantes Constantes (Les Amants Réguliers), que Garrel ganhou repercussão no Brasil. Em preto-e-branco, é uma obra leve e sensível, mas que pode se tornar silenciosa e invisível aos olhos despreparados.
Na passagem de 1968 para 1969, em Paris, um casal de jovens se conhece e se apaixona, logo depois de viver os confrontos do Maio de 68. Além do amor, há no filme o grupo de amigos que ilustra a pluralidade. Há Antoine, o amigo burguês, Jean-Cristophe, o revolucionário convicto e François, o poeta, que sente o mundo em extremos. Os três se unem nas buscas em comum – o amor e a liberdade -, e no vício pelo ópio.
Amantes Constantes é pretensioso em relação aos desdobramentos do amor e da liberdade, mas sem intenções grandiosas quanto à reprodução fiel dos fatos históricos. Garrel preferiu falar dos sentimentos que afloravam.
A história é o amor dos dois jovens, François (Louis Garrel, filho do diretor) e Lilie (Clotilde Hesme). Os conflitos de 1968 aparecem como um pano de fundo quase transparente, querendo nos dizer que os movimentos revolucionários estão ali, mas nem todo mundo vê.
A percepção de 1968 em Amantes Constantes é sinestésica: está no barulho de tiros, gritos entoados por grupos de jovens e nos estalos dos carros incendiados por estudantes e operários para montar barricadas; está no cheiro do coquetel Molotov que fica nas mãos, depois do enfrentamento entre policiais e estudantes; está na foice jogada no meio da rua, na bandeira da França queimada, nas pinturas e nas esculturas feitas pelos mesmos que querem a revolução, e nas sombras dos becos parisienses mais estreitos.
O filme transita todo o tempo entre o interior e o exterior: as ruas desertas, os becos escuros, os telhados silenciosos, as janelas discretas e os quartos alienados. Nessas passagens de ambientes internos para externos, ou ao contrário, ficam evidentes o amor e a liberdade que se desdobravam do Maio de 68. São todos cenários da vida do grupo de amigos e do casal de amantes. Mas não há uma equivalência entre interior, segurança e intimidade – ou vice-versa: entre exterior, desproteção e exposição.
Ora os ambientes externos são intimistas, ora os internos. Da mesma forma que o enfrentamento do mundo acontece – quando acontece – do lado de dentro ou do lado de fora das paredes, tanto faz. E os personagens estão sempre expostos.
Eles se permitem ser capturados em takes longos, com o rosto em foco, em close e iluminados. Não se constrangem diante da câmera que tenta invadi-los, mesmo quando estão fazendo coisas íntimas ou ilícitas.
Nas cenas em que o grupo de amigos se reúne para fumar ópio, o close no rosto de cada um é dado enquanto a fumaça sai do cachimbo e o corpo de cada um deles amolece, com a descontração das expressões por efeito da droga. Ou nas cenas de François e Lilie – eles se deixam conhecer na cama. São capturados de perto, sem roupas, depois de viverem momentos de intimidade. E tanto em um, quanto em outro, não há necessidade de explicar – os personagens passam os momentos em que estão sendo vistos de perto em silêncio. É a liberdade de prazer, a liberdade sexual e a liberdade de escolha.
Da mesma forma que Lilie se permite um close logo depois de pedir a François para ter relações sexuais com outro homem, porque ela tinha desejo por ele – e François aceita; depois ela volta para o amante.
O amor não oprime a liberdade, e nem a liberdade reprime o amor. Isso é claro. Mas o diretor fez isso na medida certa: em Amantes Constantes, ao colocar o foco da história em Lilie e François, ou, no máximo, no grupo de amigos que insiste nesses sentimentos, Garrel personalizou esse aspecto do Maio de 68 e não transferiu-o para coletividade de forma explícita, evitando que a obra se tornasse panfletária.
Por Gabriela Mayer
Escrito por gabrielamayer
Escrito por henriqueguidi