Crítica – Amantes Constantes

13/04/2008

Liberdade, amor e fraternidade

 Garrel foi feliz em Amantes Constantes por ter sido despretensioso na reprodução histórica do Maio de 68 e insistente em mostrar os sentimentos que afloravam no período – o amor e a liberdade.

Philippe Garrel é um dos esquecidos da Nouvelle Vague. Seu primeiro filme, Les Enfants Desascordés, é de 1964, o auge desse movimento artístico. Mas foi só em 2005, com Amantes Constantes (Les Amants Réguliers), que Garrel ganhou repercussão no Brasil. Em preto-e-branco, é uma obra leve e sensível, mas que pode se tornar silenciosa e invisível aos olhos despreparados.

Na passagem de 1968 para 1969, em Paris, um casal de jovens se conhece e se apaixona, logo depois de viver os confrontos do Maio de 68. Além do amor, há no filme o grupo de amigos que ilustra a pluralidade. Há Antoine, o amigo burguês, Jean-Cristophe, o revolucionário convicto e François, o poeta, que sente o mundo em extremos. Os três se unem nas buscas em comum – o amor e a liberdade -, e no vício pelo ópio.

Amantes Constantes é pretensioso em relação aos desdobramentos do amor e da liberdade, mas sem intenções grandiosas quanto à reprodução fiel dos fatos históricos. Garrel preferiu falar dos sentimentos que afloravam.

A história é o amor dos dois jovens, François (Louis Garrel, filho do diretor) e Lilie (Clotilde Hesme). Os conflitos de 1968 aparecem como um pano de fundo quase transparente, querendo nos dizer que os movimentos revolucionários estão ali, mas nem todo mundo vê.

A percepção de 1968 em Amantes Constantes é sinestésica: está no barulho de tiros, gritos entoados por grupos de jovens e nos estalos dos carros incendiados por estudantes e operários para montar barricadas; está no cheiro do coquetel Molotov que fica nas mãos, depois do enfrentamento entre policiais e estudantes; está na foice jogada no meio da rua, na bandeira da França queimada, nas pinturas e nas esculturas feitas pelos mesmos que querem a revolução, e nas sombras dos becos parisienses mais estreitos.

O filme transita todo o tempo entre o interior e o exterior: as ruas desertas, os becos escuros, os telhados silenciosos, as janelas discretas e os quartos alienados. Nessas passagens de ambientes internos para externos, ou ao contrário, ficam evidentes o amor e a liberdade que se desdobravam do Maio de 68. São todos cenários da vida do grupo de amigos e do casal de amantes. Mas não há uma equivalência entre interior, segurança e intimidade – ou vice-versa: entre exterior, desproteção e exposição.

Ora os ambientes externos são intimistas, ora os internos. Da mesma forma que o enfrentamento do mundo acontece – quando acontece – do lado de dentro ou do lado de fora das paredes, tanto faz. E os personagens estão sempre expostos.

Eles se permitem ser capturados em takes longos, com o rosto em foco, em close e iluminados. Não se constrangem diante da câmera que tenta invadi-los, mesmo quando estão fazendo coisas íntimas ou ilícitas.

Nas cenas em que o grupo de amigos se reúne para fumar ópio, o close no rosto de cada um é dado enquanto a fumaça sai do cachimbo e o corpo de cada um deles amolece, com a descontração das expressões por efeito da droga. Ou nas cenas de François e Lilie – eles se deixam conhecer na cama. São capturados de perto, sem roupas, depois de viverem momentos de intimidade. E tanto em um, quanto em outro, não há necessidade de explicar – os personagens passam os momentos em que estão sendo vistos de perto em silêncio. É a liberdade de prazer, a liberdade sexual e a liberdade de escolha.

Da mesma forma que Lilie se permite um close logo depois de pedir a François para ter relações sexuais com outro homem, porque ela tinha desejo por ele – e François aceita; depois ela volta para o amante.

O amor não oprime a liberdade, e nem a liberdade reprime o amor. Isso é claro. Mas  o diretor fez isso na medida certa: em Amantes Constantes, ao colocar o foco da história em Lilie e François, ou, no máximo, no grupo de amigos que insiste nesses sentimentos, Garrel personalizou esse aspecto do Maio de 68 e não transferiu-o para coletividade de forma explícita, evitando que a obra se tornasse panfletária.

Por Gabriela Mayer


Uma volta ao passado

7/04/2008

A partir desta terça-feira (08/04), o blog Ewaldos Filhos iniciará uma série de posts sobre as criações cinematográficas do ano de 1968, data na qual foi instaurado pelo governo militar o Ato Institucional N° 5, que de fato oficializou a linha dura dos manda-chuvas brasileiros e instalou a censura em jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão e também no meio artístico aqui no Brasil.

No entanto, Ewaldos Filhos também tratará de produções internacionais feitas em ou sobre o ano de 1968. Um exemplo será uma análise do filme Bobby (1968), do diretor Emilio Estevez, filho mais velho do ator Martin Sheen e um dos que fizeram episódios para as séries de televisão “Cold Case” e “CSI: NY”, duas das mais consagradas dos Estados Unidos.

Continuando o giro pelo mundo dos filmes, nossa parada será a Europa, mais exatamente a França. Se no Brasil o AI-5 prometia acabar com toda e qualquer liberdade, estudantes daquele país faziam a revolução de maio de 1968. Desse período, nasceu um romance entre dois jovens que faziam parte de um mesmo grupo de amigos. Esse é o enredo de Amantes Constantes (2005), de Philippe Garrel. Um drama com 178 minutos devidamente comentados por nossa equipe.

A parte nacional do “festival” terá alguns filmes da época que tornaram-se ícones de seus gêneros. Logo na estréia da série, o blog trará das margens da cinegrafia O Bandido da Luz Vermelha (1968), devidamente censurado pelos militares. Com restrições orçamentárias, o diretor Rogério Sganzerla baseou-se na história de um dos maiores bandidos da história do país e mistura ficção e realidade em uma ótima produção – se levadas em conta a vigia dos governantes e a falta de dinheiro característica dos filmes do Cinema Marginal.

Do mais, caro leitor, você também poderá conhecer mais de outras grandes produções, tanto do Brasil quanto do mundo, todas referentes ao ano de 1968, o chamado “ano das transformações”.

Boa leitura e bom divertimento!

Equipe Ewaldos Filhos

Postado por: Henrique Guidi