Seqüestros de políticos na Itália e no Brasil são retratados em filmes de diferentes épocas

Dando continuidade às matérias sobre o ano de 1968, assisti um filme recentemente que faz um paralelo interessante com a época. Bom dia, noite, de 2003, narra um dos episódios políticos mais importantes da Itália: em 1978, ocorreu o seqüestro e assassinato do então primeiro-ministro e presidente da Democracia Cristã, Aldo Moro, pelo grupo revolucionário comunista Brigate Rosse (Brigada Vermelha).
Apesar do partido republicano Democracia Cristã ter sido o responsável pela corrupção que assolava o país desde 1946, o assassinato do presidente mobilizou todo o país, fazendo com que até mesmo o Papa presenciasse seu enterro. O objetivo da Brigada Vermelha teve seu efeito contrário, fazendo com que a organização entrasse em declínio a partir de então. A revolução proletária não surtiu efeito, e nos anos seguintes, o governo italiano foi dividido entre os democratas cristãos e os socialistas moderados.

Com roteiro e direção de Marco Bellocchio, o longa conta a história a partir do ponto de vista de uma personagem fictícia, Chiara (Maya Sansa), uma jovem de 23 anos que trabalha no Ministério de Milão e vai viver com o namorado em um pequeno apartamento.
Supondo se tratar de uma vida normal, descobre-se ao longo da narrativa que Chiara pertence ao grupo das Brigadas Vermelhas, e participou ativamente do seqüestro de Moro, escondendo-o em sua própria casa. O segredo em manter o presidente cativo faz que com que a garota perca contato com o resto do mundo, e acentue os problemas pelos quais os comunistas passavam. De fato, entrando em conflito com os companheiros, Chiara passa a discordar da decisão de matar o já então velho presidente.
O conflito psicológico da protagonista é evidente, e Bellocchio faz o espectador passar por todos os desenlaces, quando mostra Chiara confusa, e não consegue decidir entre soltar Moro e trair seus amigos, ou prosseguir com a luta.

A moça começa a questionar seus princípios e valores, e passa a ter diversos sonhos sobre sua situação. Por Chiara, é possível notar o sentimento coletivo que se tinha de tentar “consertar” o mundo, e as próprias contradições dos esquerdistas da época. A trilha sonora – composta por músicas clássicas e a faixa “Shine on you crazy diamond”, da banda psicodélica dos anos 70, Pink Floyd – ajudam a compor um cenário angustiante e comovente.
No plano nacional, é possível fazer um paralelo com o filme O que é isso, companheiro?, de 1997, dirigido por Bruno Barreto e com roteiro de Leopoldo Serran.

O longa, baseado no livro de Fernando Gabeira, narra o episódio de 1969 no qual o grupo Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR8 ) – do qual Gabeira fazia parte – juntamente com o outro grupo esquerdista Ação Libertadora Nacional (ALN), seqüestra o embaixador dos Estados Unidos Charles Burke Elbrick e pede em troca da vida do americano, a libertação de companheiros transformados em presos políticos.
Esta ação isolada foi vitoriosa, pois muitos dos militantes que estavam sendo torturados nos porões da ditadura conseguiram liberdade – incluindo o ex-deputado federal José Dirceu de Oliveira e Silva, cassado em 2005 por quebra de decoro parlamentar. Os organizadores do seqüestro, contudo, foram cassados e exilados, como pena por sua rebeldia.
O MR8 seguia a linha dos marxistas-leninistas, e pretendia implantar o regime de inspiração soviética no país. Levava esse nome em homenagem à data que Ernesto “Che” Guevara fora capturado na Bolívia pelas forças da CIA.
No filme, os militantes Maria (Fernanda Torres) e Marcão (Luís Fernando Guimarães) reúnem um grupo de militantes que não se conhecem para realizar o plano de seqüestro do embaixador (Alan Arkin). Durante toda a narrativa, são mostrados todos os passos do ato, do seqüestro à perseguição dos militantes pela polícia carioca. O elenco conta ainda com Pedro Cardoso – interpretando o próprio Gabeira – Cláudia Abreu, Matheus Natchergaele, Caio Junqueira, Selton Mello, Nélson Dantas, Fernanda Montenegro, Othon Bastos, Alessandra Negrini e Eduardo Moscovis.

Em um fragmento do que acontecia no período das ditaduras e do imperialismo americano, ambos os filmes mostram que um sentimento libertador e de contracultura assolava o mundo. Movimentos artísticos e sociais convergiam para a defesa dos direitos, da igualdade e de um futuro mais promissor – ainda que utópico. A luta estudantil fazia história com a Primavera de Praga, o Maio francês e a Passeata dos Cem Mil. Entretanto, nesta época surgiram, também, muitas outras ditaduras na América do Sul, e os governos militares se fortaleceram, causando muito mais mortes, desaparecimentos e exílios, minando as possibilidades de uma luta revolucionária bem sucedida.
Imagens tiradas do site Adoro CInema e do blog Penkala.
Escrito por mairagiosa 

Escrito por theoruprecht 

Escrito por Luiz Felipe Fustaino