Com a visibilidade internacional nos últimos anos, cinema latino-americano abre espaço para filmes autorais. Exemplo disso, os argentinos Lucrecia Martel e Pablo Trapero ganham respeito e chegam a Cannes.
por Eduardo Duarte Zanelato
“E sua mãe também”, “Central do Brasil”, “Cidade de Deus” e “O Pântano” são nomes que, nos últimos anos, fizeram cinéfilos, críticos e formadores de opinião europeus e americanos olharem com mais atenção à produção cinematográfica latino-americana, que desde Glauber Rocha é vista com outros olhos por esses mercados.
Com o tempo, Palmas de Ouro foram conquistadas em Cannes, Berlim rendeu uma porção de ursos e alguns chegaram ao Oscar, mesmo que sem levar prêmios. Com isso, a América Latina ganhou maior destaque mundial – leia-se aqui maior viabilidade comercial de suas produções, ainda que em circuitos alternativos –, o número de roteiros filmados têm aumentado, mesmo que devagar, e o cinema autoral ganhou um fôlego extra.
Se Fernando Meirelles e Alejandro González Iñarritú seguiram carreiras quase hollywoodianas com produções recheadas de astros internacionais, alguns diretores, quer por falta de oportunidade ou interesse, optaram por permanecer em seus países, com orçamentos mais modestos e reféns apenas de seu processo criativo. Exemplo disso, os argentinos Lucrecia Martel e Pablo Trapero seguem com filmes autorais – e retóricas completamente distintas. Conheça a seguir um pouco da trajetória desses dois diretores.
Diva portenha
Hoje, Lucrecia Martel acumula a direção de sete filmes, todos com uma estética parecida. A decadência da classe média argentina, casos de alcoolismo, lesbianismo e outras crises mais ou menos sérias são discutidas em suas produções.
De sua produção recente, pode-se destacar “O Pântano”, de 2001, e “A Menina Santa”, de 2004. O primeiro retrata uma família da elite decadente em sua casa de campo; com fotografia escura, cenas longas e uma melancolia reinante, situações vão se passando em meio a adultos bêbados e um ambiente pesado. O título representa um pântano social e psicológico, que prende e afunda essa classe que, sem forças, torna mais complexas as relações entre si e sua derrocada financeira.
“A Menina Santa” é o retrato, também por meio dessa estética melancólica e arrastada, da descoberta sexual de uma jovem em meio a seus estudos de catecismo e as intrincadas relações dos funcionários do hotel que lhe serve de casa e de trabalho para sua mãe. A história é transformada em um jogo de esconde-esconde perverso entre um médico e a jovem Amalia, no que se assemelharia a uma recriação muito particular e original do livro Lolita, de Vladimir Nabokov.
O Padilha argentino
Enquanto Lucrecia promove uma reflexão da classe média argentina e de suas intrincadas relações, culpas e manias, uma outra vertente é proposta pelo talentoso Pablo Trapero, diretor de filmes como “Mundo Grúa”, de 1999, e “Do outro lado da lei”, de 2001. Adotando a temática das diferenças e tensões sociais do ponto de vista dos ‘oprimidos’, Trapero aborda os temas que giram em torno disso com mais virulência que Lucrecia.
Em “Mundo Grúa”, filme que lhe rendeu elogios e projeção internacionais, o diretor aborda as frustrações dos sonhos de infância de um argentino que se vê obrigado a sair do país em busca de oportunidades, dada a crise pela qual passa o país. Já “Do outro lado da lei” é ainda mais contundente. Numa espécie de antecipação ‘light’ de “Tropa de Elite”, o filme discorre sobre a corrupção da polícia de Mataderos, distrito da Grande Buenos Aires – uma espécie de Diadema portenha.
A partir desse contexto de corrupção, um ingênuo jovem do interior é catapultado à colheita de propinas, ao subjugo dos menos favorecidos e a uma conturbada relação amorosa com uma policial. O saldo é um convite à analise de como a anomia à qual o subdesenvolvimento relega sua população se choca com os poderes insitucionalizados.
Outras obras de Trapero, mais antigas, seguem essa proposta de discussões mais profundas e chocantes, como “Família Rodante” e “Nascido e Criado”, de 2004 e 2006, respectivamente.
O peso do nome
As duas linhas propostas por Trapero e Lucrecia ganharam força e projeção no último Festival de Cannes, em maio deste ano. Ao lado de “Linha de Passe”, de Walter Salles, “Leonera”, de Trapero, e “La Mujer Sin Cabeza”, de Lucrecia, concorreram na mostra competitiva.
“Leonera” é a história de uma mulher que, grávida, tem de cumprir pena de prisão; por lá, ela tem seu filho, que permanece preso também. “Foi algo que me suscitou sentimentos contraditórios, porque discutem-se dois direitos questionáveis: o de uma mãe de estar com seu filho e o de uma criança de viver em liberdade”, afirmou Trapero, em entrevista à agência Reuters, quando do lançamento do filme em Cannes. À época, Carlos Merten, repórter d’O Estado de São Paulo, definiu o filme relacionando-o à “Família Rodante”. “Pablo Trapero volta a falar de família como inferno e paraíso, como em ‘Família Rodante’, mas desta vez ele fez o contrário de um road movie. A personagem fica presa na cadeia para fazer a viagem transfrormadora”, escreveu.
Já “La Mujer Sin Cabeza”, pode ser descrito, a partir do que se escreveu sobre seu lançamento em Cannes – o filme, assim como “Leonera”, ainda não estreiou por aqui –, como um thriller que se desenrola a partir de um acidente rodoviário que muda a vida de uma mulher.
O destaque e a repercussão dos filmes sinalizam que, possivelmente, os diretores ganhem ainda mais foça e projeção fora de seu país. Os dois filmes foram citados pela revista americana Variety, e “La Mujer…” conta com distribuição da gigante americana Focus Features; “Leonera”, por sua vez, é distribuido pela também gigante norte-americana Buena Vista International. Abaixo, você confere os trailers dos dois filmes, ainda sem lançamento previsto no país.
Trailer: “La Mujer Sin Cabeza”
Trailer: “Leonera”